quinta-feira, 4 de junho de 2015

Aniversário



Busco minha eternidade
absolvendo os minutos que passam
dentro de cada hora...
atrás de cada dia...
Conto todos os momentos
e entrego o mundo
ao futuro...
Lá hei de morar, e,
certamente, descansarei
meu pesado sono
em seu travesseiro
de nuvens!




Pouso Alegre (MG), 11 de agosto de 1994.


Otail Santos de Oliveira

À Liberdade II

Lembro-me de ti
quando desponta o sol pelas montanhas
quando passeio pelas encostas
quando o vento rompe em assobios
quando desdobra-se a rosa
 a soluçar perfumes...

Lembro-me de ti
quando as lágrimas do sorriso
escorrem traiçoeiras
quando o falar gagueja
a emoção da palavra
quando do som nasce o canto
e do canto o grito de amor...


Lembro-me de ti
após tantas corredeiras
e em sonhos, quando
descansas teu nome
numa imensidão de nuvens luzentes...
pois tu chamas vida
regato das essências
luz...
Liberdade!


Rio de Janeiro (RJ), 15 de junho de 1987


Otail Santos de Oliveira

É

É o dia de meias verdades!
Meias mentiras contadas por meias palavras...
Todos os tempos já passaram e os que ficaram,
Esperam pela hora infindável do próximo destino.
Quantos dias já sobreviveram a tantos desastres,
E futuramente hão de vencer este passado...
É o dia de juntar os retalhos,
Olhar velhas fotografias,
Pregar botões em rotas camisas...
O bom e desbotado jeans preso no armário:
– Recordações, passado, anos de dias...
Dia de vidas cruzadas, intercruzadas pelas ruas:
– O olhar preso na distância...
– A lembrança atada ao olvido...
É o dia dos meios dias,
Trazido pelas meias horas
Da meia saudade que jamais senti.


Pouso Alegre (MG), 13 de abril de 1989


Otail Santos de Oliveira

Domingo

Que o dia, no seu pacato silêncio,
Mire-se no espelho da noite, e morra a efêmera poesia!
Em volta da mesa, os bichos trocam ideias sobre a política local...
Nem tudo é coma alcoólico,
E os mais eufóricos, estes, vão ao estádio assistir ao futebol!
Suas mágoas esvaem-se na peleja...
No muito da paciência, ouve-se um óóóóóóóóó... h!
É geral o nervosismo roendo unha...
Sem foguetório segue o jogo...
Muitas coisas acontecem nesse meio tempo.
E, perdendo tempo, outros seguem a ordem dos esquecidos...
... rumo a um fim de rua...
Na casa branca, um samba na vitrola.
As horas roubam o domingo dos dorminhocos,
Enquanto choram os subalternos pelas horas vindouras...
“sempre é algo que se tem para sempre!”
Impregnado no calendário imaginário do futuro...
E quanto à bomba?
Que bomba??
Bomba... só se for aquela de encher pneu de bicicleta...
(bomba de gasolina só serve para levar do bolso o dinheiro suado do mês)!
Na vila dos operários... em todas as fachadas... em todos os muros:
- “Rosa Eu Te Amo Você!”
É, os muros são meras declarações de amor...!
E o amor anda solto pelos muros...
E os muros prendem almas abarrotadas de amor!
Gooooooooooool! O rádio pula frenético no fundo da estante!
E dezenas de foguetes... centenas de foguetes... milhares de foguetes...
Ufa! Incontáveis estampidos rompem o prelúdio do luar...
“É, somente um gol para levantar o moral!”
... e em torno da mesa, os bichos continuam discutindo sobre o destino dos homens.
Sem cura, todos levantam e reverenciam a noite.
Não obstante a ilusão, dorme mais um descaso...
Não há lágrimas... só espera...
Eterna espera por chegar...

Pouso Alegre (MG), 17 de junho de 1982.

Otail Santos de Oliveira

À Liberdade III



... Deixaste em mim tua lembrança como estrela...
Aproximaste de mim como um sopro de inverno
Buscando os campos.
Tu não pousaste em meu ser
Para serdes somente um acaso.
Serei eu, por ventura, tua mão?
Não! Não quero ser tua mão!
A mão simboliza a força,
E a força transgride a inocência...
Meu coração não coseguiria viver além da inocência,
Minha alma se retrai em pensar no poder da força.
Deixe que eu seja apenas os teus pés;
Quero levar-te até os confins deste mundo...
Mostrarei a te as pessoas chorarem...
Os rios inundarem as planícies e as cidades...
Tem sol para dourar a grama verde
E fogo devorando as florestas.
Tem menina loira que nua se banha no riacho,
E meninos negros, pobres, arrastando-se nos esgotos das calçadas...
Tem mel descendo da copa das árvores,
E muita fome na boca dos esquecidos...
Tem teu sopro de vida na asa da mariposa,
E tua completa omissão nos braços pendidos nos presídios...
Tu nadas atrevida entre as trutas
Descendo as encostas dos vales,
Mesmo assim, olhos tristes não te enxergam na madrugada...
Tem cascatas a chorar o adeus das águas,
E pescador solitário a falar com as pedras...
Todo o universo olha assustado
O despertar da nova aurora de crianças assassinas
E pais omissos!
E teu nome que tantas guerras já fecundou!
Teu cheiro que tantas mortes já velou!
O que poderão fazer???
... Falei de mim à tua estrela...
Quero dormir em teu colo de mãe!
Teus filhos imploram por teu ventre,
Querem teus seios, suas bocas desdentadas,
Obsecadas pela luxúria!
Usam teu sagrado nome para conquistarem o poder,
Blasfemando sobre teu sepulcro de paz.
Usam tua alma como algoz,
Escravizando as crianças...
Sequestrando as crianças!
Como é triste espreitar esse medo.
Tua luz torna-se cada vez mais negra,
E tua sorte mais distante.
Ah, adorada estrela, antes que me leves
A ter com as bestas,
Deixe-me saborear teus lábios
Sabendo a morangos carnudos.
Talvez, deste amor impossível.
Possam os pequenos da terra
Saciarem-se das nossas juras,
E antes que o dia parta, adeus!





Rio de Janeiro (RJ), 08 de novembro de 1987.



Otail Santos de Oliveira

A Lua



A lua redonda
Como um tamanco
Vermelha
Como um sorvete de coco

Sai da rua menina
Senão o boi te pega

Se você não gosta de goiabada

Por que comeu minha bicicleta?!?


Pouso Alegre (MG), maio/1971

Otail Santos de Oliveira

quinta-feira, 1 de março de 2012

Sinto Saudades


Sinto saudades de quem nunca fui,
de um passado atravessando o presente de minhas lembranças
trazendo suspiros calados na alma
levando lágrimas escorridas do coração...
Sinto que o tempo adora brincar de me ver assim
...
e dos arquivos de minhas memórias,
olha elas ali, fazendo faltar ar em minha respiração,
secando a boca e molhando os olhos...
Sinto saudades de quem nunca fui,
mas será que isso é verdade?
minha presença dentro dessas imagens,
certamente, me coloca ao vivo e em cores nessa realidade,
parte atuante, que desvaneceu a certo tempo,
reaparecendo em futuro certo
para os devidos reparos da vida,
fator pelo qual aqui estou
a sentir essa doida saudade de quem nunca fui!


Pouso Alegre (MG), 01 de março de 2012.

Otail Santos de Oliveira